Data da entrevista: Março/2017

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Lucas Santiago - Booz & Company

Lucas Santiago

Lucas André Gava Santiago cursou Engenharia Química pela Unicamp de 2001 a 2005 e trabalhou logo em seguida na Ajinomoto, e empresas de automação industrial como Emerson e ABB. Fez MBA na Universidade de Michigan (2011 a 2013) e retornou ao Brasil para trabalhar em consultoria na Booz & Company (PwC). Atualmente atua em indústria, na AGCO Corporation na área de estratégia.

Formação: Engenharia Química pela Unicamp (2001 a 2005)

Empresa: Booz & Company (PwC) - (2012 - 2015)

Último Cargo em Consuloria: Lead Senior Associate (2013 - 2015)

 

CCU: Como foi seu primeiro contato com a área de consultoria? Durante sua graduação, quais foram suas experiências com a carreira?

Lucas: Eu só fui entrar em contato com consultoria depois que eu fiz meu mestrado nos Estados Unidos, logo que me formei na UNICAMP havia uma “tradição” mais de engenharia entre meus colegas.

Na época que estudei na Unicamp ainda era muito incipiente o recrutamento das grandes consultorias na Universidade. Que eu me recordo tinha só Roland Berger, Bain e McKinsey que recrutavam na época, era muito raro você ver alguém da divulgação da carreira. Na minha turma e no curso de engenharia não tinha praticamente ninguém indo para consultoria. Havia apenas cartazes nos murais de divulgação, era um recrutamento bem passivo.

 

CCU: Como foi a preparação para estágio logo após a graduação, no caso a Ajinomoto?

Lucas: Eu fiz meu estágio na Ajinomoto, aí quando me formei tive a oferta de continuar como engenheiro full time, então acabei não recrutando depois que me formei até 2007, quando sai da Ajinomoto.

A faculdade não tinha muito em termos de ajudar o aluno com preparação, na minha época era mais “cara e coragem”. Era ainda muito cru o processo de preparação para entrevistas ou feiras de empresas na Unicamp. Não tinha algo mais formal, como preparar para uma entrevista de consultoria ou case interview.

Consultoria demanda muita preparação, não dá para você chegar seco na entrevista, tem que saber pelo menos como estruturar um case.

 

CCU: Tendo em vista que seu contato inicial com o mercado de trabalho foi com a indústria, como aconteceu essa transição para o ramo de consultoria?

Lucas: Bom, após 7 anos na indústria, eu já tinha trabalhado muito focado em manufatura, em vendas e em marketing, então faltava uma visão mais estratégica. No estágio de carreira onde estava para ter uma atuação em estratégia teria que ter uma atuação em consultoria, por isso busquei um MBA no exterior. Lá, acabei pegando disciplinas (no MBA) focados nesse assunto.

 

CCU: Quais as diferenças entre os ambientes corporativos da consultoria e da indústria? E sobre a relação com as pessoas durante a rotina de trabalho?

Lucas: Acho que a principal diferença entre indústria e consultoria, é a cultura bem distinta e em linhas gerais a área de consultoria acaba tendo uma organização muito mais flat, muito mais horizontal e muito menos hierárquica que uma empresa convencional.

Quando você está falando de indústria, tem muito mais camadas e níveis hierárquicos, e você acaba ficando muito focado dentro da área de atuação em que está. Então se você é da área de vendas fica muito mais focado em vendas / marketing, quando você está em consultoria acaba tendo uma visão bem ampla de diferentes funções, diferentes indústrias e acho que esse é o grande valor da consultoria.

Agora em termos de cultura, como eu falei, consultoria é muito mais horizontal, mais meritocrática do que as [empresas] convencionais. Você tem muito claro na sua cabeça as possibilidades de carreira, então você entra como consultor, fica três anos, tem que fazer o MBA, depois você volta como associate, fica 2-3 anos e vira gerente, depois diretor e depois vira sócio. Portanto sabe muito bem aonde você vai e quando você vai, e se não acostumar você é mandado embora, então acho que tem uma cultura muito mais meritocrática do que uma empresa comum que você entra e pode ficar de um a infinitos anos na mesma função, o caminho é bem mais definido em consultoria.

Em team working isso varia muito, não tem padrão, muda muito de indústria para indústria. Mas em vias de regra, o trabalho em consultoria é um trabalho em equipe. Você tem um time trabalhando por determinado período num determinado cliente, se você estiver na área de vendas (por exemplo), você vai adquirir experiência de outras pessoas de outras áreas, então acaba tendo uma interação de equipe mesmo que não seja o seu time ali mais próximo de você.

 

CCU: Ainda sobre essa meritocracia, você acha que a consultoria é uma área mais rápida de alavancar a carreira e subir de cargos?

Lucas: Acho que a consultoria é com certeza um alavancador de carreira, pelo fato de você em um curto espaço de tempo estar com um cliente, resolver o problema dele e depois você já está tratando de um assunto completamente novo, isso tem um fator diferencial muito grande e as empresas que acabam contratando pessoal de consultoria esperam isso e vão precificar você com base nisso, então eu não estaria hoje onde eu estou se não tivesse tido uma passagem em consultoria.

 

CCU: Como você escolheu a área de estratégia da carreira de consultoria (entre gestão, strategy, financeira…)?

Lucas: Isso acabou acontecendo porque eu tive uma experiência muito forte em indústria em diferentes funções. Quando eu comecei a trabalhar na Ajinomoto, basicamente eu trabalhei no start up da fábrica, então assim... tudo que se pode aprender de supply chain eu aprendi naquela época.

Depois eu também tive uma experiência de vendas e marketing, então eu acabei querendo migrar para estratégia para conhecer uma coisa nova com que eu ainda não tinha trabalhado e acabou sendo uma coisa que eu gostei.

 

CCU: Como foi a experiência de MBA (University of Michigan) e o trabalho desenvolvido no período com a Owens Corning?

Lucas: O trabalho que fiz na Owens era uma disciplina da Universidade de Michigan que, basicamente, várias empresas contratam os alunos para fazer um projeto de consultoria.

Eu fiz um projeto de Go to Market. Basicamente foi isso, uma disciplina que você tinha que escolher entre quais projetos entrar, tinha um sorteio e você acabava caindo em um projeto. Era eu, dois japonese e três americanos.

 

CCU: Voltando ao Brasil, como esse MBA lhe influenciou e agregou em seu perfil profissional, principalmente em consultoria e liderança?

Lucas: Você não vai aprender modelagem e estes tipos de coisas no MBA, creio que o MBA te ajuda muito mais como interagir com diferentes culturas, diferentes tipos de pessoas. Você está nos Estados Unidos com 500 alunos de países completamente diferentes, com experiência de vida completamente diferentes, acho que se aprende muito estando em um ambiente exposto a tanta gente diferente assim. É muito mais um conhecimento pessoal que profissional.

Na questão técnica, por exemplo, fiz uma matéria de contabilidade avançada, eu não ficava olhando balanço e vendo no rodapé o que estava acontecendo. Então hoje eu não sei mais nada do que eu aprendi nessa matéria, porque eu acabo não usando no meu dia a dia, mas o que fica é você lidar com pessoas de diferentes culturas e eu acho que de fato o MBA consegue te contribuir, porque na vida sempre que você precisar aprender alguma coisa, faz treinamento, lê um livro, enfim, você começa a usar aquilo no dia a dia.

 

CCU: Quais fatores você pode apontar que, em sua graduação na Unicamp, tiveram essencial importância para seu sucesso profissional?

Lucas: Eu trabalhei muito com pessoas da Unicamp, da USP, de outras faculdades e eu acho que um grande diferencial do cara da Unicamp versus pessoas de outras universidades (falando mais do ramo de consultoria) é que ele consegue pensar mais “fora da caixa” do que alguém que fez um ITA, ou uma própria USP.

Portanto acho que, para mim essas seriam as coisas que eu colocaria como o grande diferencial da Unicamp além das outras universidades. Creio que um aluno do ITA e um aluno da USP são muito mais “quadradinhos”, vamos colocar assim, do que um aluno da Unicamp. Essa é a minha visão baseado no pessoal com que eu acabei interagindo nos últimos anos.

 

CCU: Durante o MBA, você sentiu alguma diferença no conhecimento de sua graduação brasileira em relação aos estudantes de outros países em Michigan?

Lucas: Não, acho que a diferença é muito mais cultural do que qual faculdade você fez. Acho que ali não é muito se você veio da Unicamp, FGV... é muito mais se você é brasileiro, coreano ou japonês.

Por exemplo, gente latina é muito similar culturalmente comparado com o americano. Já este é muito mais direto, acaba tendo foco em resultado e competitividade muito maior do que a gente, e orientais de maneira geral, muito reservados.


 Entrevista: Redação CCU