Laura Cancherini

Data da entrevista: Abril/2017

LinkedIn: https://goo.gl/YNSsT9


Laura Cancherini - McKinsey & Co.

 

 Laura Cancherini se formou em Engenharia Civil pela UNICAMP em 2011. Fez intercâmbio e iniciação científica durante a graduação. Começou sua carreira em um estágio na França em sua área, trabalhou como líder de projetos em um e-commerce e como consultora na CBRE, Booz & Co. e McKinsey & Co. Atualmente, cursa MBA no MIT Sloan School of Management. 

Formação: Engenheira Civil (2006 - 2011)

Empresa: McKinsey & Co. (2016 - Até o momento)

Cargo Atual: Associate Intern (Summer do MBA)

 

 

CCU: Em paralelo à graduação em engenharia civil, você realizou um intercâmbio para França e uma iniciação científica em digitalização 3D. Quais os principais pontos que te influenciaram a ser a profissional que é hoje?

Laura: A iniciação científica foi um teste durante a faculdade. Era uma curiosidade minha em trabalhar com a área da digitalização 3D e um pouco com LAPAC, que era um laboratório muito bem-sucedido na minha época de estudante. Nunca quis ser acadêmica ou professora, então esta parte da graduação não me influenciou diretamente. O interessante é que foi na IC que tive meu primeiro contato com alguém do MIT, onde curso MBA atualmente.

O intercâmbio sempre foi uma grande vontade. Na verdade, um dos principais motivos de ter entrado na UNICAMP foi a possibilidade de realizá-lo. Estudei francês desde o primeiro ano, e no terceiro ano consegui participar do programa. Tudo que envolve virar gente grande, viajar e morar em outro continente aconteceu quando fui para a França no meio da graduação. Foi aí que descobri a paixão de morar fora. Quando voltei da França, tive uma certeza: queria uma carreira internacional.

 

CCU: Participou de alguma organização estudantil?

Laura: Participei durante um curto período em uma empresa-júnior, mas o basquete foi o meu maior envolvimento extracurricular na UNICAMP.

Acho que se faltou algo na minha graduação, foi me aprofundar nessa parte. Não me sentia atraída pelas empresas-juniores. Não via muito bem como ter uma experiência profissional boa nelas, pois eram focadas em áreas técnicas e estavam ainda começando. Não havia, na minha época, organizações focadas em business ou com uma abordagem de gestão de projetos, e isso faria uma grande diferença. Se eu pudesse voltar atrás, talvez até criaria uma.

 

CCU: Seu primeiro estágio foi na área da engenharia civil quando estava em intercâmbio na França. Como foi essa experiência? Este estágio chegou a influenciar na escolha da sua carreira?

Laura: Antes de seguir em consultoria, tentei atuar como engenheira civil, mas não me apaixonei. Fiz um estágio na França, em uma obra de hospital, e depois fiz mais um estágio na área civil. Ambos serviram para experimentar e ter certeza de que não queria uma profissão técnica.

Achei o crescimento muito lento para mim dentro desse ramo. Para empreender ou chegar a um cargo de gerência, demoraria muitos anos. Então, descobri que queria ter um impacto maior mais cedo na minha carreira.

Acho que os estudantes deveriam testar através de estágios diversas áreas mesmo antes de se formar. Principalmente dentro da carreira técnica, para não terem dúvidas depois. E a engenharia é boa neste caso pois proporciona muitas oportunidades de atuação em diversas áreas.

 

CCU: Sua próxima experiência profissional foi como trainee na CBRE, em 2011, já atuando como consultora. E, depois disso, passou por outras duas empresas de consultoria. Em alguma etapa da sua vida, você decidiu que esse era seu ramo?

Laura: Acho que a consultoria foi “acontecendo” naturalmente e gradualmente para mim.

Primeiro fui para a CBRE, que é a maior consultoria de real estate do mundo. E lá eu achei que era a perfeita combinação de business e engenharia civil. E, como eu trabalhava com Valuation de propriedades atendendo clientes e suportando recomendações, era uma ótima transição entre o ambiente técnico e de consultoria.

Ter contato com profissionais seniores e, mesmo sendo tão nova, trabalhar em times e participar de recomendações foi uma coisa pela qual eu simplesmente me apaixonei. Entretanto, na CBRE, achei o portfólio de trabalho limitado. Foi aí que me interessei pela consultoria estratégica, atuando em General Management. A resposta disso foi o começo das aplicações para as empresas de consultoria de estratégia.

Então entrei na Booz & Company e, em dois anos, aprendi muita coisa. Trabalhei em mais de dez indústrias, com pessoas e grupos diferentes, conversei com inúmeros CEO’s, diretores e realizei diversos projetos governamentais. E amei tudo isso.

 

CCU: Em 2014, você trabalhou como líder de estratégia e projetos na Rocket Internet. Por que você decidiu diversificar um pouco o tipo de empresa em que trabalhou?

Laura: Não pretendo ser consultora para sempre. É natural nessa carreira ter o que chamamos de estratégia de saída. Desde o começo, eu queria aprender muito e queria que a consultoria me alavancasse em uma carreira empreendedora.

Após dois anos na Booz & Company, eu estava num ponto de decisão: queria aplicar para um MBA e no longo prazo me tornar uma empreendedora. Mas para isso, precisaria de primeiro experimentar o ambiente empreendedor.

O que algumas consultorias geralmente fazem é o secondment antes do MBA, que é quando o empregado pode trabalhar em outro lugar durante um ano antes de partir para o MBA.

Tentei usar esse recurso na Booz e, posteriormente, ter o MBA patrocinado pela empresa. Mas a Booz tinha acabado de ser adquirida pela PwC e estava num momento de transição com políticas diferentes e não se sabia se o secondment seria algo possível. Fiquei com medo de me comprometer com algo tão incerto, então prefiri deixar a empresa antes de partir para o meu secondment.

Ao mesmo tempo, através do contato com o co-founder da Mobly, que conheci através da Booz, surgiu uma oportunidade única de trabalhar em uma startup que estava crescendo super rápido e cheia de desafios.  Eu não pensei duas vezes e fui para a Mobly para experimentar o ambiente de empreendedorismo por um ano, enquanto aplicava para o MBA.

 

CCU: E, em 2016, em meio ao seu MBA, voltou à consultoria trabalhando na McKinsey & Co. belga. O que fez você querer voltar para a área de consultoria? E por que a McKinsey na Bélgica?

Laura: A vontade de ser empreendedora sempre foi forte, mas havia uma questão de maturidade profissional, independência financeira, timing e ainda acho que tenho muita coisa a aprender.

Então a McKinsey abriu as portas dizendo que os melhores empreendedores de hoje estão saindo de lá e, além disso, que a empresa pretendia me preparar pra que eu me sentisse pronta e partisse pro meu próprio negócio, se assim eu quisesse. Lá vou ter a oportunidade de aprender ainda mais a gerir pessoas e liderar projetos.

  A escolha pela Bélgica foi por motivos pessoais e pelo fato de querer voltar à Europa depois do MBA. Sem dúvida minha experiência de intercâmbio na França me ajudou muito a tomar essa decisão e conseguir essa oportunidade.

 

CCU: Em meio à rotina frenética e a uma relação forte entre as pessoas dentro de uma empresa de consultoria, você se identificou com o ambiente propiciado?

Laura: Esse ambiente vicia. A rotina de troca de projetos a cada 4 ou 6 semanas é viciante. Eu amo.

Você está sempre ligado, sempre estudando, trocando de time, conhecendo gente nova, lugares novos, e viajando muito. E o que assusta muita gente, para mim, me seduz. Pois quero fazer tudo isso e a consultoria proporciona.

Então não é um trabalho que você se sente maltratado, pois ao mesmo tempo você tem toda uma infraestrutura a sua disposição para dar suporte não só ao seu trabalho, como às necessidades pessoais. É bem cansativo sim, mas ainda sou jovem e sinto que tenho muita energia!

 

CCU: Agora, o MBA. Alguma das empresas que você trabalhou te deu suporte para esse programa ou foi você, por conta própria, que correu atrás de tudo e se bancou?

Laura: Fui por conta própria, mas como fiz o summer job na McKinsey & Co. e vou voltar a trabalhar lá, eles patrocinaram a segunda metade do MBA.

 

CCU: Por se tratar de um dos melhores programas de MBA do mundo, não deve ter sido fácil conseguí-lo. Em questão das provas necessárias para aplicar para o MIT, como e quando você se preparou?

Laura: Preparação do MBA tem que ter dois lados muito fortes:

1. Querer muito e ser persistente. Começar a estudar, no mínimo, um ano antes. Investir dinheiro e tempo na preparação. É incrível como isso toma tempo. Tem de se dedicar como se fosse um vestibular. E ter alinhado o que você espera disso: Se é uma experiência para crescer como pessoa, um upgrade no currículo e consequentemente na carreira, ou apenas um tempo fora do país.

2. Ter isso alinhado com seu empregador. Muita gente aplica sem contar para a empresa que estão aplicando. O que foi essencial para mim foi compartilhar com quem eu trabalho. Na startup, entrei e já deixei claro meu objetivo de ir para o MBA em um ano. Foi então que me disseram: “venha que a gente vai te ajudar”. Então é muito importante ter chefes que te suportem nisso e te recomendem. Os três co-founders haviam feito MBAs, portanto eram pessoas que valorizavam isso e realmente me impulsionaram a entrar no MIT e outras escolas no topo dos rankings.

Envolvi nesse processo umas vinte pessoas. É muito trabalhoso e necessita de muita revisão e críticas construtivas. Precisa-se também de suporte de pessoas próximas muito seniores que conhecem muito bem seu trabalho te indicando nas recommendation letters.

Como o curso tinha início em setembro de 2015, apliquei quase um ano antes e comecei a me preparar em fevereiro de 2015, ou seja, sete meses antes de começar o curso.

A primeira parte do application é o exame do GMAT. Eu já tinha conhecimento prévio do exame, mas estudei aprofundadamente pela internet, realizando exames e preps. GmatClub foi o portal que mais utilizei além dos exames básicos do livro de GMAT e das aulas de grammar para inglês. Mas para a parte lógica da prova eu fui auto-didata.

Em abril, comecei a conversar com pessoas sobre os essays para me inteirar sobre os assuntos que essa parte da candidatura envolve. Como os temas só seriam liberados em junho daquele ano, me preparei para o que pudesse vir.

 

CCU: Como o curso está no fim, você já tem parâmetros para analisar o quanto valeu a pena. Quanto acha que este curso vai te auxiliar nos seus próximos passos profissionais?

Laura: Absurdamente. Para mim, o MBA teve um impacto muito mais pessoal do que profissional. Porque te testa em várias esferas como líder: como você se posiciona diante de um problema difícil, como lidera uma atividade com pessoas tão qualificadas quanto ou mais que você. 90% do curso é isso.

Academicamente, o MBA dá um bom background de business, que não tive através da engenharia.  Aprendi muita coisa “on-the-job” nas consultorias em que trabalhei e consegui ver agora a teoria por trás de tudo.

Muito importantes também são os contatos que você faz. Por exemplo, uma vez estava trabalhando com uma pessoa da suíça, que tem uma carreira muito semelhante a minha, e fomos colocados em frente a um problema e pensamos em resoluções totalmente distintas. Aí você entende que não há certo e errado, são opiniões e diferenças de perspectivas.

Posso afirmar que me tornei uma melhor líder, melhor cidadã e me sinto mais qualificada para tratar de problemas mais difíceis e com pessoas mais seniores. Tenho uma aula, por exemplo, que é com CEOs. Toda semana vem um CEO de empresas importantíssimas no cenário mundial e jantamos e temos 2 horas de discussão com eles. Por exemplo, semana passada veio o CEO global da J&J, essa na próxima vem a CEO da Pepsi & Co. Durante essa aula tenho a oportunidade de falar com essas pessoas sobre tudo – desde assuntos polêmicos da administração deles, como assuntos pessoais e curiosidades. Isso é apenas um exemplo das coisas que o MBA pode te proporcionar.

 

CCU: Você acha essencial para consultoria o MBA?

Laura: A McKinsey não exige, mas como há career tracks diferentes, é questão de querer ou não. Por exemplo, se você não vai para um MBA, a empresa pode te oferecer um “mini-MBA” reforçando seu background de business. Ou seja, não é essencial.

Mas, como engenheira, acho muito importante. Pois conceitos de marketing, estratégia e management não foram abordados na minha graduação e só tive contato teórico-prático aqui no MIT. São coisas com que você tem que trabalhar desde o dia 1 em uma consultoria pois são básicos e estar preparada para isso faz muita diferença.

 

CCU:  Você encontrou alguma dificuldade em algum ambiente profissional por ser mulher? E como você vê a porcentagem de mulheres na consultoria atualmente?

Laura: As consultorias estão trabalhando muito forte em como tornar o ambiente de consultoria propício para que as mulheres se desenvolvam. Particularmente, acho uma discussão muito pertinente.

Eu tive chefes mulheres excepcionais e não gostaria que elas saíssem porque a rotina e o trabalho não permitem.

Hoje as consultorias estão atentas em relação a isso e estão procurando flexibilizar a carreira para quando a mulher engravida ou precisa de um time-off, ou também dando prioridade se a mulher tiver que trabalhar em um escritório local ao invés de viajar.

Uma pergunta recorrente que ouço é: “você vai continuar na consultoria quando estiver grávida?” E eu sempre respondo que sim. Além disso, acho que a consultoria é um dos melhores ambientes para que isso aconteça. Vou explicar o porquê: você não deixa um cargo vazio durante meses, é substituído e corre o risco de voltar e perder seu posto. Muito pelo contrário, você termina um projeto, passa o tempo necessário desligada do trabalho e volta com um projeto diferente, como se nada tivesse acontecido no meio. O problema é depois. Cuidar do bebê é um ponto delicado quando está trabalhando, mas isso acontece em qualquer área. Já vi muitas mulheres tendo filhos e não saindo da consultoria.

Sempre trabalhei com mulheres,mas nunca foram a maioria na consultoria. Gostaria de ver mais, mas as que vi eram sempre muito boas e aprendi muito com elas. Além disso, nos projetos que trabalhei com mulheres, percebi aspectos no processo que só se tornaram presentes devido a diversidade dos gêneros trabalhando em conjunto.

 

CCU: Existe alguma mensagem que você gostaria de deixar ou algo que queira comentar?

Laura: Tenho uma mensagem para os que pretendem entrar nessa carreira: a consultoria não é a única via para uma carreira de sucesso. Vários jeitos existem e uma consultoria não precisa acontecer logo depois da faculdade, pode acontecer depois do MBA ou de um trabalho em indústrias dentro da sua área. Para as pessoas que querem aplicar, recomendo que pensem bem antes de começar a estudar. Pois é um estudo muito pesado para você desistir quando estiver chegando perto de realmente tentar entrar em uma.

Gostaria que as pessoas tivessem um maior contato com os consultores para que isso auxilie a entender o lado bom e o lado ruim de trabalhar em uma consultoria. É um trabalho que te esgota, então você tem que ter uma maturidade boa para manter a qualidade de trabalho e seguir nessa carreira.

Na UNICAMP, faltava uma noção de consultoria e acho que Clubes e empresas-juniores trazem muita informação e muito conhecimento. As pessoas precisam estar mais preparadas para essa carreira antes de se dedicarem tanto e, para mim, é um prazer poder ajudar nisso.


 Entrevista: Redação CCU